quarta-feira, 11 de agosto de 2010

ILUSÃO DE ÓTICA?

Há quem diga, que na Administração Pública, a criatividade, deve estar presente na exata medida de sua necessidade...Para tal, no Canadá, mentes brilhantes e incandescentes se expressam contra o excesso de velocidade com muita propriedade...Veja você mesmo(a):

Os buracos são móveis e colocados só para assustar...É o famoso pé no prego...Ao ver os buracos o motorista manera a velocidade e assim todos ficam bem...Inclusive o carro...

Será que os fabricantes/fornecedores de radares e câmeras ficam satisfeitos?
Será que aqui no Rio a moda pegaria?
heimmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmm????????????

www.choppinhodigital.blogg@gmail.com

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

MINHAS EMOÇÕES VÊM A FLOR DA PELE COM O COLLATERAL MURDER OU MELHOR DIZENDO CHACINA REAL


Prisioneiro, dos moles que andei dando ao longo da vida, rumino hoje, idéias, pensamentos e sentimentos que me têm, assustado – Não se preocupem, não está a nascer no poeta um malfeitor tais quais os típicos homicidas da Baixada Fluminense ou ainda um prototerrorista e/ou cabra sanguinolento, do nível.

É que, algumas emoções por vezes se exacerbam, me assoberbam, arrebatam...E se bem me lembro, em Ética a Nicômaco, Aristóteles pede cuidado com as paixões.

E eu tenho andado assim, apaixonado por certas emoções e completamente inerte, morto, despreocupado com outras...Algumas coisas me doem tanto e tanto, que choro...Na minha solidão de poeta outras não me doem nada e eu fico olhando o tempo, a volta...Preocupado na minha condição de ser humano.

Estava costurando mentalmente um outro texto para postar hoje ou amanhã...Mas a leitura do post, do jornalista Marcelo Ambrósio, do JBlog, Jornal do Brasil, Collateral Murder, me mudou a paixão...Emocionado vou caminhando pra outra ponta da colcha de retalhos que iria costurar.

Tempos atrás, postei tratando do Arturzinho, meu sobrinho que completou 4 anos, no final de julho...Há época (do post), estava ele a completar três anos...Tratava o post de seu tamanho, atitude e de um novo complemento a seu vestuário, uma bota ortopédica, que lhe somava forças...Há época vestia ele o numero 5, calçava já vinte e alguma coisa...Hoje, veste 8 e calça 30. Continua a fazer das suas e é senhor daquelas boas emoções que me tomam:
· Semana retrasada no sítio, um dia após a comemoração de seu aniversário (Festa do Homem Aranha), um domingaço de sol, ao ver ser colocada à mesa, uma enorme bandeja com salgadinhos diversos, danou a comê-los, “a uma velocidade estonteante”, mesmo com as ralhas da mãe, pai e avó...Só parou quando, meu mano do meio disse: Arthur, você vai explodir e começou a rir. A ação do pequeno gigante, foi emocionante, posto que se debruçou sobre a mesa, tal qual éramos obrigados a fazer nos tempos da escola primária e disse olhando a bandeja com vontade de devorá-la: Vou parar de comer, se não, a minha cabeça, vai explodir...Maravilha de garoto...
· Em dado momento recentemente, mandou o irmão “tomar no rabo” (desculpem a insensatez, mas eu adoro quando ele xinga), seu pai, aquele meu irmãozinho de 125 kg e a mãe...Partiram pra cima...O que foi que você falou?...Eu falei vai “tomar no rabo”...Mas, não pode é palavrão...Não é não...É sim e se você repetir vai apanhar...Mas, mãe, é “vai tomar no rabo do coelhinho”...O rabo do coelhinho é palavrão mãe? – Têm preço isso?

No retorno à casa, por conta de umas contas mal feitas e por falta de grana, no único caixa eletrônico, de Parada Modelo, que funciona, dentro, do Mercado Verone (fechou o mercado, fechou a bica que solta a sua grana que está na caixa d´água do mercado financeiro, que seu banco representa), fomos obrigados a gastar mais combustível passando ao largo da praça de pedágio.

A volta, passeio custoso, por bairros de Magé – saímos da rodovia e pegamos a entrada de Piabetá, e para isso, é necessário atravessar, alguns obstáculos, o primeiro é uma chicane, feita pela concessionária que comanda a Rio-Teresópolis/CRT - trouxeram imediatamente repúdio, raiva, dor. A pobreza é enorme e escandalosa, extrapola qualquer emoção momentânea trazida pela música do rádio, conversa animada, gracejo ou choramingo de criança dentro do carro.

O contraste é absurdo...São centenas de casas mal acabadas, envoltas em lixo e mato...Da natureza autóctone, a Mata Atlântica, já naum resta nem traços nem lembranças e é fácil observar o crescimento desordenado e desconfigurado de um planejamento de ocupação do espaço geográfico nas valas a céu aberto, ruas esburacadas (muito também, pela mesma ação que cometíamos, feita por pesados caminhões de carga), postes com fios embaralhados, casas com cercas de arame, outras sem nada que se possa identificar como uma fronteira – “este canto é meu” - contra algumas poucas, pouquíssimas, dahí, um pedaço do contraste, bem construídas e acabadas...O comércio, basicamente é de bares e biroscas que se servem a ser o que são e ainda um pouco de padaria, mercadinho, armazém, sacolão, loja de utensílios domésticos, material de construção e sei lá mais o quê

Anda longe daquela região de Magé, que é uma marginal e opção a Rio/Teresópolis, o planejamento urbano. A presença da Secretaria de Obras e Planejamento com algum mínimo que seja processo de urbanização.

Mas, o que há de maior e de mais gritante é a presença a cada rua – eu escrevi a cada rua – de uma espécie de totem de alvenaria com a logomarca de Magé...É incrível o que se poderia construir de útil para a população local, com tanto cimento e tinta, sem contar com o custo de mão de obra e manutenção...Olha!!! Aquilo ali, emociona viu...Dá raiva de votar, de não ser ninguém...De não ter força, voz, dedo em riste para acabar com aquilo...E que medo me dá estes sentimentos – Vocês acreditam que a violência resolva alguma coisa?...Claro que não, né?...Pois é, mas é através da violência que as oligarquias que se dividem no poder operam aquela pobreza, aquela dor toda que se pode ver e sentir...

Contei até cansar e/ou me distrair, mais de 15 totens, desde a saída da rodovia até novamente entrar nela...E em nosso caminho, não contemplamos rodar todas as ruas do bairro (distrito?).

Já nessa viagem expressa, sabia que havia sido assassinado em minha rua, bem na esquina, a 150 metros da casa do pai, um jovem de 20 anos que gostava de roubar, fumar maconha, hulk (crack com maconha) e andar armado...Havia sido solto há uns quatro meses, por esforço do pai e da advogada, sob os auspícios das brechas que a lei têm...Preso em flagrante que fora com um carro roubado: A notícia ganhou os jornais da época e até o escracho do Wagner Montes...Chamado de “Bandido Vacilão”, por ter admitido o roubo por conta de estar com dores nas pernas por tanto ter andado.

Sua prisão foi uma sorte, pois assim, não foi assassinado pelos traficantes do Castelar, local onde era Vasco e fugira com a carga, a grana e a peça.

Jorge Pé Pé é tão antigo na rua quanto eu existo...Sua mãe fora costureira e amiga de minha mãe, fazia ela nossos shorts (aqueles calções de pano fajuto com elástico no cós)...Com o Jorge e todos os seus irmãos e irmãs eu brinquei, desde bola de gude, peladinha, os piques todos e pipa até as danças do período junino – sempre orquestradas por seu Nilton...Jorge Pé Pé, é o pai, que perdeu o filho violentamente.

Eu, até hoje, não fui falar com Jorge e sua esposa...Não tenho coragem...Nosso cumprimento quando nos cruzamos, é assim: E eu ligo?...Com a resposta: Nem Ligo...Resquícios de quando ele ainda tomava uma rama arrumada...”Chora Neném!!”...Falava..Rindo...Chora Jorge, chora rua...chora...

Eu?...Eu nem ligo...E como pode? Como posso nem ligar?

Eu ligo pra dor do Jorge, da esposa, dos irmãos e família. Nem posso imaginar como é ficar sentado ao lado de um filho garoto, ensangüentado, com a cabeça destruída por 14 tiros...14 tiros que atingiram até seu hambúrguer, 14 tiros as 22:15 da noite, 14 tiros porque ameaçava ele, tanto quanto, ameaça os que o mataram a sociedade livre de um País democrático e sem pena de morte (que o Lula, tão bem condenou em discurso neste final de semana)...14 tiros que esburacaram o muro da Dna Vica (uma das maiores proprietárias de imóveis do Bairro e das mais antigas moradoras) e eu nem ligo...

Sábado, rodou mais um...Em frente a um Colégio Municipal, vizinho a sua casa...Morreu quase em seu portão...Mais um ladrão, safado, escroto...Mais um garoto, mais um menino...

Estava, eu, na esquina do Posto do INSS, perto da Fábrica de Roupas Esportivas do Amaral, o mais famoso produtor de roupa esportiva de Belford Roxo (além dele tem o Amarelo & Cia), um dos “caras” do Raça, a cara do Raça por ser o estilista e o produtor da roupa do time que representa bem o futebol de Belford Roxo...Estava, eu, na padaria bebendo papo com amigos...Quando ouvi os tiros...Bem próximo, bem perto...Ficamos atentos...

Os comentários e a correria da galera logo chegaram...A notícia nunca tarda...E vêm em tempo real...Real eu falei...Mataram mais um...

Soube mais tarde, já no domingo, que fora um ex aluno meu...

E eu nem ligo...Não é que não ligue, que não estarte, que não me eletrifique...Não é assim que devo me expressar...Eu ligo sim, ligo...Só não sinto...É isso..Eu não sinto...Porra!!!! Como posso não sentir...” Eu não to nada bem...Não mesmo”.

Há aqui e ali...Uma fábrica de matar...Não sei o que a movimenta. Se somente a simples vontade de matar ou se existem encomendas pagas...Ninguém investe capital próprio para tais ações (munição, gasolina, tempo de campana, créditos de celulares, tempo pessoal...etc)...Há que haver lucro na atividade...De onde vêm, por que vêm? Sei lá...Mas eu não sinto...Não sinto nada, por eles, os mortos tragicamente...

Caramba!!...Quando meu filho, à completar e comemorar seu aniversário foi duramente agredido, por seguranças, na Boate Via Show eu tive um surto...Ao olhar pro rostinho dele, todo inchado e ralado...Seus olhos feridos e esbugalhados em roxo forte...Eu morri...Eu senti...Por que será que agora, na morte do filho de um amigo e na daquele ex aluno eu nada sinto?

Eu não tô nada bem...

Semana passada, assisti a um filme que ainda não havia visto...De verdade, naquele dia da semana eu preferia não tê-lo assistido, mas em papo com o camaradíssimo Renato Aranha (Banda Espiral e Blog Eu Nas Palavras), troquei as bolas na indicação do canal do filme que eu veria – 12 homens e mais um segredo – que rolava na HBO e eu disse a ele Pipoca, que ao consultar o menu e ver que errei, me deu a dica sem saber que não era dia de assistir aquele filme...No Pipoca, tá rolando outro filme, cara, o daquele maluco que chega ao Brasil fugindo da guerra...?????...Fui olhar e fiquei por lá...O filme é “Tempos de Paz”, com Tony Ramos e Dan Stulbach, filme de 2009, dirigido por Daniel Filho (que também atua).

Eu não sinto dor, emoção dolorosa ou dolorida pela morte do filho de meu amigo...Mas senti muito ao passar pelo arredores de Piabetá/Magé...Não senti por meu aluno morto...Mas senti muita emoção com o filme Tempos de Paz...Fiquei olhando a atuação, a vibe do filme, o discurso do filme, a temática do filme...E ficava chorando...Deitava, sentava, ficava de pé...Andava e pensava que PUTA filme, que Puta filme...E chorava...

Eu sinto, eu sinto as coisas...Sinto além do que deveria.

Quer saber?...Eu soul negro...Soul preto – E assim sendo jamais deveria ter sentimentos racistas, xenófobos e discriminatórios...Mas ultimamente eu tenho ouvido tanto, lido tanto e chorado tanto com as dores palestinas, que nem liguei para um pedacinho do horror que o filme tratava também...Do horror do holocausto... Pois as dores dos árabes palestinos estão sendo impostas pelos judeus israelenses...E sei que pessoa sã...Não fala mal ou vai de encontro aos males do holocausto (e nem os escreve com letra minúscula)...Não soul anti semita, não sou não...Mas eu to puto com aqueles caras...Com todos...Não com a política só não, mas com a família inteira...Com todos eles em sua contemporânea diáspora voluntária para dominação do mundo...

Quando leio sobre o maior Campo de Concentração da História da Humanidade...Eu sinto muita raiva dos Israelenses...E tenho pensamentos que não revelarei aqui...Eu nem ligo para o holocausto, quando sei que um ocorre no agora, no hoje, no pós Declaração Universal dos Direitos Humanos...Na era pós Bush...Eu sinto raiva agora escrevendo...Muita raiva...Raiva de sua necessidade de seguir adiante, sobre Golias, sobre o Monte Sião (Zion) e o massacre aos Jebusitas, sobre as águas do Jordão e por sobre toda a política, diplomacia e gritos do mundo...O querer ser e ser Davi, esmagando a tudo e a todos por um propósito, todo o tempo, me deixa irado...E olha que estou ouvindo Lisa Stansfield e não Napalm Death, Wagner ou Garotos Podres...Com esta raiva de agora, com esta paixão que me devora a razão...Cabeça, tronco e membros eu choro e nem ligo...

Eu não to nada bem...
Eu sinto demais as coisas, tenho dores que não são minhas...Não durmo...

Ontem, assisti mais uma vez ao filme “Um Lugar Chamado Notting Hill” (Julia Roberts e Hugh Grant) e pela primeira vez ao "Jean Charles" (com Selton Melo, Luis Miranda, Vanessa Giácomo) ...Os dois estavam passando ao mesmo tempo...Com um pequeno lapso apenas...Vi aos dois...Por já ter assistido Um Lugar Chamado Notting Hill eu deixava escapar mais tempo com o Jean Charles...Eu chorei de novo...Putz...To muito chorão.

Fico emocionado com filme...Com a morte covarde do Jean Charles, cara de quem eu nunca saberia ou conheceria decerto (bem, tem essa história do plano cartesiano...mas), se não fosse a tragédia e eu senti e chorei...

Não chorei pelos garotos mortos...
Mas chorei pelos filmes...Pelas dores das dores do filme.

Chorei pela atuação...Chorei, pela falta de força...mais uma vez...Chorei pela tragédia...Chorei e chorei ainda por Um Lugar Chamado Notting Hill...Como posso chorar por um conto de fadas e não chorar por uma cabeça estourada por 14 tiros na esquina da rua de minha casa?

Eu chorei, também, meio que sem lágrimas...Por um motivo que só me ocorreu após ver o filme Jean Charlles...Sabia do filme. Não pude vê-lo nos cinemas...Curti a vibe pelo Selton Melo que é impagável...Falar dele é chover no molhado...Mas eu vi na atuação do Luis Miranda, algo impressionante...Absurdo o cara...E eu também chorei embora sem lágrimas...Por conta de só se falar no Selton Melo...Toda a emoção do filme está concentrada na morte trágica, na história de infortúnio do Jean Charles é claro...Mas se espalha esta emoção e se esparge mais e mais na atuação do Luis Miranda...Confira lá...

Hoje, disposto a escrever outra colcha de retalhos...Como já deixei grifado no início do texto, me surge durante a leitura do JB On Line, o colunista internacional Marcelo Ambrósio, com um comentário sobre um ataque feito pelas forças militares americanas a 15 civis iraquianos, que foi como todos os ataques feitos por eles, documentado com imagens.

Acontece que para azar deles, o documento de imagens, foi vazado por um militar que foi severamente punido – e que decerto repudiou a ação - ao contrário dos que executaram friamente a chacina que inclusive inclui a uma equipe de jornalistas, da Reuters.

Este documentário, ou seja, este documento em imagens que se tornou um documentário ao ser postado ao mundo no youtube, tem nome de “ Colatteral Murder” e pode ser visto por vocês (a ferramenta incorporação não permite a ação, foi desativada a pedidos, então, é bom correr para ver pois com certeza será mais um documento que a justiça retirará do democrático youtube).

O vídeo completo tem cerca de 40 min, rola um outro editado com cerca de 25 min...Mas o Youtube está recheado e cheio de pequenos pedaços do vídeo que variam de 3 a 9 min...

“ (...)Na avaliação dos militares, quem comandou a chacina não fez nada de errado, apenas seguiu as chamadas "Rules of Engagement". Agiram autorizados por um superior - e isso fica comprovado na cena. O que choca mais, além da impunidade da matança, é a comprovação que mesmo em um governo em tese com disposição mais democrática e menos hegemônica que o de Bush, o esprit de corps dos militares prevaleceu sobre o valor da vida iraquiana(...)”
MARCELO AMBRÓSIO, JBlog

“ (...)Mal treinada ou obcecada por um inimigo que - tal qual no Vietnã - se confunde com a população, o comandante do helicóptero e seu artilheiro identificam um grupo de civis que conversava com a equipe como insurgentes. A câmera fotográfica é identificada como uma arma. Depois de alguma insistência, o comando dá a ordem e começa a matança (...)”
MARCELO AMBRÓSIO, JBlog

Enquanto escrevo estou tentando assistir, mas este velho note, e sua pouca memória não o está carregando nem a paulada...

Mas pela descrição minuciosa feita por Marcelo Ambrosio...E em parte recortada e acima reproduzida...Eu chorei e meu dia ficou uma merda...

E eu que gritei e fiquei entusiasmado com a vitória de Barak Obama e com a esperança de todas aquelas mudanças tão sonhadas...Não fico nada bem...

Preciso largar as paixões que me assoberbam...Sair de minha realidade subjetiva.

Eia, vêio o riso...Que bom!!!!... Arturzinho, chegou da escola e invadiu o quarto/escritório/alcova...Quer ver desenhos...Eh,eh,eh!!...Só depois de tomar banho e almoçar...

(Depois de tentar fazer a melhora do texto e passar da fase de revisão (oops!). Já na hora de postar, consegui carregar um vídeo de menor tamanho (6:53min) e que permite a incorporação)

Assistam: COLLATERAL MURDER

domingo, 1 de agosto de 2010

MICROCONTO: Oh! Glória


Oh! Glória


- Seu Antônio, me vê duas pipas por favor

- Ta na mão...Vai levar linha e cerol, dona Lina?

- Vou sim seu Antônio...O Leozinho e o pai vão soltar pipa hoje...É que hoje é folga dele...Leozinho é uma animação só.

- Tá aqui...óh...A melhor pipa do bairro...E tem carimbo e tudo, olha ahí...Tonho de Deus, Rei das Pipas.... Glória deus, é só benção.


Falou e mostrou orgulhoso o carimbo que havia mandado fazer dias antes, o Tonho de Deus Rei das Pipas. Antônio Dias Carpo de Jesus, 49 anos, caucasiano, natural de Santa Catarina, filho de agricultores católicos, descendentes diretos de Italianos, radicados no Estado desde o século XIX., não foi sempre, o Tonho, de Deus.


Desde o final de sua adolescência que gabava-se de seu ateísmo, de sua controversa e dedicada vocação comunista. Durante toda a infância fora pressionado pelos pais e avós a ler a bíblia e a freqüentar as missas. Fora prometido a Padre Giulliano, desde o batismo, seria sacristão e na graça de deus, padre de seminário. E por tal missão ardia em trabalhos diários na capela que, fora construída nas terras do Coronel Justino, local onde seus avós eram meeiros.


Aos quatorze anos fugiu dos olhos dos pais e parentes, que ficaram atormentados sem saber o que lhe havia acontecido, andava à época, por aquelas bandas, um circo de ciganos e uma onça que perturbava o juízo dos capatazes da fazenda, sumindo com gado bovino miúdo e galinhas.

- larguei o pé pelas mata, logo de noitinha depois que mãe apagou a lamparina, peguei de pé na noite toda, até a rodovia. Cheguei lá já era de manhãzinha, sentei na beira, abri a sacola e peguei um dos pedaço de bolo que levei pra viagem...Não senti nem o cansaço, só a fome...Fome de mundo, fome de liberdade, fome de ser comigo e por mim mermo.


Fui assim, de estalo, com pouca roupa, o canivete, umas laranja, pão, tapioca, farofa de aipim e os pedaço de bolo que tinha economizado dos café da manhã...Só isso e corage, vontade de ver o mundão...Agora eu era dono de meu destino...


Que deus, que padre, que igreja que nada.


Antônio, falava com a emoção dos seus quatorze anos. Toda a igreja calada o ouvia atenta neste seu testemunho emocionado – um testemunho de sua transformação no sangue de cristo.


Em casa, Leozinho e o pai se preparavam para soltar pipa. Era domingão de sol, dia lindo e iluminado...Na quinta, quando Lina chegou com a pipa , o cerol e a linha em casa, Eduardo já estava pronto para sair, fora chamado as pressas pelo delegado Romão, chefe de sua equipe, na DAS – Delegacia Anti Seqüestro, haviam recebido uma dica de onde estaria caindo o estuprador da calcinha amarela, o perigoso e sanguinário estuprador que após torturar e estuprar suas vitimas, deixava-as vestidas apenas com uma calcinha amarela.


A dica era quente e era uma chance de tirar o Secretário Estadual de Segurança Pública, o Chefe de Polícia Civil, a imprensa e a sociedade de seus calcanhares (de Aquiles), e do da delegacia, a folga ficaria para domingo...Tanto melhor pensou...


Mas Leozinho, de 5 anos, ficou inconsolável, estava de férias na escolinha e tinha muito pouco tempo com o pai que dividia-se em plantões, expedientes, investigações e emergências tais quais a que por hora se entregaria.


Na venda de Tonho de Deus, seus filhos, Olga, de 22 anos brincava com o sobrinho Kaíque, de 3 anos, filho de Olívia, de 16 que ajudava, Luis Carlos de 13 a pendurar as pipas na parede. Todos estavam meio apreensivos pois Lênin, de 24 anos, o mais velho e problemático dos quatro, não aparecia em casa desde quarta feira a noite.


- andando pela estrada sem saber o rumo nem direção, já até pras hora de sol a pino no meio do céu, um caminhão passou e fez buzina...Corrí, peguei da cara na janela e perguntei, vai carona?, o motorista riu e perguntou pra onde eu ia...Eu respondi pra ele bem assim...Vou pro mundo...ele riu de novo e me mandou subir. Não perguntou nem meu nome e já foi me oferecendo um cigarro e um gole de cana.

Nem me lembro direito a hora que paramos e do que aconteceu naquelas horas, estava já meio tonto daquele cigarro esquisito e da cana. Acordei pelado numa cama com várias mulheres, mais velhas que eu...O quarto era pequeno, tinha cheiro de cigarro, aguardente e roupa suja. O motorista estava também trançado no meio de três mulheres, contei e ao todo tinha umas seis ou sete mulhé.

Porta trancada, janela com uma cortina de chita barata, fui ao banheiro que era uma fedentina só e tomei o primeiro banho de minha liberdade.

Dali, seguimos para São Paulo e minha emoção não dava lugar a nada...Fumamos outros cigarros, bebemos outros goles, paramos em outros casas em outros postos, em outros bares e em outros ares com e sem luz vermelha. De São Paulo fomos ao Paraná, do Paraná a Goiás de Goiás pra outro canto e de canto em canto, foram dois anos de estrada, parada, trabalho, suor e prazer...

Nesse ponto da vida eu já ia fazer 17 anos e já fumava maconha e bebia como um adulto, já pilotava o caminhão, de meu compadre Arthur, que não andava bem de saúde...Arthur além da maconha e da cachaça também tomava uns comprimidos que não me deixava chegar perto – depois vim a saber que era optalidon – Por conta das dores constantes no peito e nas pernas, passamos a trabalhar mais em São Paulo, é que tamém o caminhão já não era mais aquelas coisas mermo.


Percebendo a disposição e bem estar de Eduardo, Lina resolveu arriscar uma pergunta, Eduardo odiava a falar do trabalho em casa. E então Edu, conseguiram prender o tarado?.Não, respondeu Edu...Mas ele não vai mas muito longe não...Deu mole lá pros lados da zona Oeste e acho que a milícia o pegou. Não quero nem pensar nisso hoje, hoje o negócio é pipaaaaaa...Agarrando-a pela cintura em um beijo, que Leozinho, logo chiou...Pai vamo, vamo logo pai. Riram e Edu pegou o menino pelos braços e jogou-o ao ar. Ta legal, vamos passar cerol e cortar geral, disse: - cuidado rapaziada, se cuida que chegou o cerol fininho.


Na venda, com os olhos esbugalhados, ao telefone, Olga balbucia: mas meu deus. Como isso foi acontecer, meu deus.Ai,moço, o que é que eu faço? Ai Olívia, ai Luizinho...Mataram nosso irmão, meu deus...ai mataram o Lênin, mataram o Lênin, meu deus. Luis, corre lá na Divina Rama e chama o papai...Pega a moto Luizinho vai rápido, falou nervosa anotando de forma inconsciente alguns dados que lhe eram passados pelo telefone...Sei, sei...Mas moço pra que roupa? O que ? de calcinha? Ai meu deus que foi que fizeram com meu irmãozinho, ai meu deus.


- filhão, vamos arrastar aquela pipa amarela ali?

- Vamo pai, corta ela papai

- Não foge não é o cerol, é o cerol...ah ah ah....

- Pai, pai cuidado com o menino na moto pai

- Ai meu deus, ai meu deus o que foi que eu fiz meu deus? Ajuda aqui, ajuda...Chamem uma ambulância, rápido, chamem uma ambulância rápido por favor...


As portas da Igreja da Divina Rama e Graça, o apóstolo Íago junto a esposa, missionária Eliane, despede-se dos fiéis dizendo: - que domingo glorioso, que domingo de graça e luz, que lindo e belo testemunho Antonio, que benção tê-lo aqui, conosco, vá com com deus, amado.


Vindo a seu encontro e vendo que os fiéis já haviam se dispersado, o diácono Paulo, diz: apóstolo, que benção, hoje a arrecadação bateu nosso recorde e olha que são apenas 9 meses de portas abertas para o senhor.

Quanto foi Paulo?. Mil e trezentos reais em dinheiro e mais este cheque de trezentos e vinte e cinco reais, apóstolo, mil – e – seiscentos – e – vin-te – cin- co - re-aissssss, respondeu sibilante...Que ótimo, com o cheque a gente cobre a conta da igreja que tá negativa, com o dinheiro a gente paga a nota dos instrumentos e ainda sobra algum...Ta duro?


- sabe Tonho, a melhor coisa que a gente fizemo, depois de enterrar o compadre, foi eu pedir as conta da fábrica, você vender aquele bar amaldiçoado, pegar nossas crianças e vir mesmo aqui pro Rio, sabe...Assim, você largô de vez o vício, a bebida, o cartiado, as mulhé da vida...Entregou o coração pra Jesus...Viu como tá dando tudo certo? A venda vai bem, tu ta danado nas venda de pipa e cerol...A gente mora qui a tão pouco tempo e já tem freguesia, nas verdura, nas galinha.

- E nas pipa né Marta...No cerol

- Sabe não sei como eu fiquei tanto tempo naquela vida

- Se você num fosse da vida, agente não tinha se conhecido, né?O que vale é o hoje, amanhã é de deus e nós somos de deus

- É meu velho...E tem também o caso do Lênin...Lá ele não ia se endireitar...Viu como ele tem andado calmo? Vendeu o revolve...Que benção

- É mulhé...É o nosso senhor operando

sábado, 31 de julho de 2010

VEM E VAI DE MIM

Da Gama (Ex Cidade Negra, Atualmente Solo), Ulisses (Ex Banda Black Rio, Mr Black, Atualmente Copa 7), Sylvio Neto, Carlinhos (Professor de Dança), Raimundo Santa Rosa (Ex Sec de Cultura de N Iguaçu)
SOU JACUTINGA

Aqui
os rios se entrelaçam
em desenhos
de uma geometria
de vida e de história

E ainda hoje
se desdobram as lutas
e os gemidos jacutingas
donos desta terra
toda cheirosa
dos temperos
de meus ancestrais de África

Do sangue escorrido
Dos jacutingas exterminados
Surge uma terra fértil
A germinar laranjais
E um povo forte e criativo
Com a força do coração
pés e mãos
De meus ancestrais

sexta-feira, 30 de julho de 2010

PASSO A PASSO



Nada bem

Disse o 007 sangrento

De Craig


Nada bem

Cantam Ana Carolina e Seu Jorge


Nada bem

Repete o poeta:

Eu não estou nada bem


Troco a noite pelo dia

Confundo o sono

Com os pesadelos


E só...

Com as luzes e os pelos

Com os poros sujos

E a barba em novelos

Subo a escadaria

Dos altos desesperos


Há mais sufoco

Que dor

Há mais saudade que saúde

Há mais franqueza

Que virtude


E o amor me surge novamente

Numa luz inquietante

Numa beleza ainda fria

Mais possante

E eu não estou nada bem...

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Invertedor de dores, Criador de sabores em Sons e Imortal que sente


Já vai de alguns poucos anos que troco imeus com o amigo Célio Pedreira...Eu não tenho mais Orkut..Por lá a gente interagia mais...Mas o que vale é a troca fascinante de energia que flui desta linkagem feita...

Célio é um médico poeta instrumentista...Eu não o conheço pessoalmente...E ao mesmo tempo conheço...Mas é de ler seus poemas...Por gostar de sua poesia...Imagino seu ser médico...E sua alma pessoa: minha certeza veio deste texto, que sem a sua autorização, vai aqui postado, no dia em que matéria de tv, mostra a vergonha e a sacanagem que vai acontecendo no Hospital de Acarí, onde idosos, para que possam conseguir marcar consultas, para no mínimo daqui a dois meses, chegam as tres horas da madrugada...

Célio, mora em Tocantins é autor de livros e toca na banda Mestre André, foi eleito recentemente um imortal da Academia Tocantinense de Letras - ATL...E eu, tenho muita sorte em trocar letras e palavras com este "invertedor de dores, criador de sabores em sons e imortal que sente"

INVERTER AS DORES

Dia vem e o labutar diário dos espasmos a caminhar leitos e corredores largos. Investigar os óbvios para atender aos obscuros, eis a luta mais desigual que conheço. Assim como tentar curar saudade com antiálgicos, como tratar insônias com ópio. O plantão segue suas horas num ranger silêncioso, onde a ciência não aceita só ciência, exige zelo e afeto. Pedir zelo parece perto, mas alcançar afeto é pura arte. Quantas dores necessitam ser invertidas todos os dias?
Pois bem, são 5 horas da madrugada. Um ancião a confessar-me: - Tenho uma agonia no peito, é forte! Parece que tudo por dentro está fechando... a agonia sobe no pescoço, como fosse sufocar... daí minha mão esfria... parece dor mas não sei onde começa, nem onde termina, sei que não estou aguentando! Mas se o dia for amanhecer e o galo cantar, passa (...) Parece uma morrência! A ciência me chama para um estreito. A dor do ancião permanece. Minhas mãos, olhos, ouvidos, nariz e o artifício dos exames não logram esclarecer a agonia em chamas. Alguns paliativos imediatos e recorro aos tratados, aos protocolos, nada... a memória não encontra os atalhos certos para aquela dor. Volto a procurar os olhos agora fechados do ancião no leito. Dorme. Lembro do galo que teceu um canto e não ouvi. Outras dores me encontram, inclusive as minhas. Resolvo voltar para uma conversa com o ancião já acordado. Está morando só. Não deseja mais as janelas, mantém a porta encostada para não ter o trabalho de abrir ou fechar, o apetite é miúdo, diz. Uma melancolia farta habita meus olhos. Conta mais, peço. É assim desde que, há sete meses, minha companheira de vida se foi... Um silêncio branco nos vestiu. Outra vez procurei o glossário do compêndio e não encontrei a palavra que procurava: Saudade! Levo o ancião para meus passos.

Célio Pedreira

quinta-feira, 22 de julho de 2010

FARTO


As distâncias vão se formando de todas as formas e formatos...E não há tecnologia que possa resolver, solver, dissolver este embróglio (é assim que se escreve).

Quinze dias sem a net...Quinze dias sem postar...Não houve rede wi fi, anteninhas, roteadores e sei lá mais o que que resolvesse...E o problem, era simples: um novo telefone comprado, que vem com agenda, calculadora, bina (e acho que até geladeira...)...Teve conectado a seu local apropriado, o fio que era da web e por ahê vai...

Risível né?

Poeminha então:

FÉRTIL

Fértil o falo de meu pensamento
farto do fato
da palavra dizer
senil
Sobre o infarto
do sentimento

Cai, febril
sobre a incerteza
de saber-se, dizer
no formato certo
de compreender-se
no sensível
o incerto
o dinâmico
indizível momento