quinta-feira, 20 de junho de 2013

ARRUINADO




ARRUINADO


Arruinado, sua vida escorria junto a sangueira que se esvaía do corpo, caído, à seu lado...

 Engraçado, não foi tão difícil executar esta ação,  quanto está sendo ir embora e deixar, aqui, só, o corpo de meu amor...

Seu pranto, não refletia, em nem um mínimo o que se sucedia em seu peito e, seu peito ainda não sabia chorar, o que ali acontecera...E será, que ainda conseguiria algum dia reconhecer-se, coração, seu coração chumbado ao peito?...

Arrastou-se para longe daquela cena, carregando-a na memória, unha e carne, corpo e sombra foram-se embora...

Estava tão linda, seus cabelos tão cheirosos ainda perfumam minhas mãos sujas: que descanse em paz, enquanto eu rumino meus dias...

Nada é fácil, nada é difícil e nem tudo é impossível...O possível se traduz além e atrás da vontade, por vezes...por vezes apenas...


terça-feira, 18 de junho de 2013

RAIVA NAS RUAS


RAIVA NAS RUAS 

Eu acho que sei...É a raiva, que chega com uma super demanda reprimida...Uma raiva legítima...acumulada, socada, macerada...E a transubstanciação, dessa raiva, em ação politico reivindicatória comportada, vai demandar tempo...Ah! se vai...A tal, falta de educação, que surge agregada a raiva, a tal balburdia que vem agregada a falta de educação, a tal violência contra o patrimônio público - e ainda contra o patrimônio histórico, que explode, agregada, a falta de educação, estão nas inúmeras ações do Sérgio Cabral por exemplo, estão ainda nas diversas e várias ações do Paes por exemplo...Estão na arrogância, que volta pra trás, da Rede Globo, do Arnaldo Jabour e de praticamente toda mídia que muda estranhamente de discurso e de visão...

 A destruição do patrimônio pessoal de muita gente, logo na assunção, por vingança, disfarçada em "choque de ordem", foi a raiva do Paes...Explicitada, exposta e posta em postas à mesa do poder...

 A conversa entre Lula e Sergio Cabral, durante inauguração do Complexo Esportivo de Manguinhos, em 2009, interrompida por um garoto, morador da "comunidade", que é literalmente ridicularizado e xingado...Explicita a raiva, a falta de amor, educação e respeito de Cabral, esta ação visceral de arrogância é pura raiva... (inclua aqui a raiva de Lula e de Pezão, que estavam presentes e participam da chacota...)

http://www.youtube.com/watch?v=f4oYY2ceiOU

 Meus poemas, são o meu mais terno e intimo suspiro apaixonado de pura raiva...Algumas de minhas palavras, escritas aqui, quando provocado por declarações, entrevistas e ações ou respostas de artistas ou autoridades na mídia ou em meu dia a dia, da minha Belford Roxo...São a mais pura raiva - que reprimidas pela educação escolástica, pela tal intelectualidade, saltam deseducadas, do coração para a tela desse mundão web...

 Raiva, raiva, raiva - estamos todos com raiva...A pior delas, a mais vil e que não deve ser entendida ou respeitada é a que vem das autoridades...

 E a pior modalidade dessa raiva oficial é, a geração de raiva no cidadão, que na maior parte das vezes é, subjugado e exilado desse título, o maior que um pagador de impostos e indivíduo autóctone de um País, Cidade ou Bairro merece: o título respeitoso, de Cidadão...

 A segunda pior, seria a negação da possibilidade do acesso à educação, esta sim...Gera a pior das raivas, posto que sem educação não há como reconhecer-se cidadão, não há como exigir, lutar por e/ou conquista-lo...Raiva...Raiva, Raiva...

quarta-feira, 20 de março de 2013

MAIS UM BRECHÓ NO CAMINHO DAS PEDRAS


Muito do amor que trago no peito, não é sabido ou compreendido por meu povo – considero meu povo aquele que sigo e que a mim segue por conta dos interesses comuns e dos laços pares que nos prende – Assim, talvez por conta do muito e do pouco que soul, o prazer que sinto por viver neste meu Bairro  de Areia Branca e nesta minha Cidade de Belford Roxo – muito embora os sentimentos de universalização, me acometam e me matem de uma saudade diferente, aquela pelo que ainda não vi e conheci, uma saudade pelo que não aconteceu - passem batido...

A capacidade que nós tivemos para reconstruir a nossa identidade, que forjada em mentira e falsidade, foi enfim redefinida com uma nova identidade social e autoestima, uma quebra do maldito estigma anterior, que nos surgiu através da arte e da cultura, lugar incomum e indiretamente proporcional ao que recebemos do poder público local – favor ler e prestigiar a obra do amigo de composições e música, o Mestre em Ciências Sociais André Leite – precisa ser, melhor compreendida e relatada.

Se na Memória Social, repousa uma ação que surge da coragem de enfrentar o desconhecido e o subjetivo, posto que no desconhecido estão, o universo violento das práticas marginais e no subjetivo, está o poder empreendedor e criador de uma matéria não palpável e previsível que é a arte, na Memória Histórico-Antropológica, estão os registros pictóricos, arqueológicos, econômicos e, genéticos, pois que, somos o que sobrevive da extinção massacre aos nativos, primeiros e originais seres desta região – os índios jacutingas, e somos ainda remanescentes dos negros escravos, trazidos de África, também conhecidos por jacutingas – A hidra de iguassú, em referência a hidra de Lerna, pelo caráter quase indestrutível e imbatível daqueles negros quilombolas – favor consultar e prestigiar a obra do Phd em História, o meu amigo e mestre, Dr. Nielson Bezerra, um morador de Belford Roxo, que vive entre a Vila Paulina e Quebeq no Canadá, que vive entre as estradas ruins da Joaquim da Costa Lima e os belos palácios e museus de Paris ou às velhas e dolorosas histórias de New Orleans, que vive entre os niticiários nada bons sobre a Baixada Fluminense e o mofo dos livros em que mergulha em seu incansável trabalho de pesquisa.

Areia Branca, bairro de Belford Roxo, tanto quanto outros bairros foi passagem de riquezas que vinham de muitos lugares, a caminho do embarque para a Metrópole, que estava na Europa, via rio Sarapuhy, a economia deste local quer seja a produzida nos mocambos e quilombos ou a produzida pelos invasores e dominadores europeus era grande – favor reconhecer e prestigiar a obra do já citado historiador o Dr. Nielson.

Por tal passado é, justo que tenhamos um presente melhor, com vistas a um futuro econômico-social, mais e mais promissor. Mas, infelizmente, a forma como é explorado o comércio neste Bairro, não nos permite vislumbrar um futuro ao menos parecido com o atual presente, dos bairros circunvizinhos, os aparelhos comerciais estão na mão de poucos proprietários, na verdade apenas quatro pessoas/famílias, controlam “todas” as lojas ofertadas à exploração comercial no bairro, que não oferece espaço à instalação para exploração comercial, de escritórios diversos (contábeis, advocatícios e de serviços em geral) e, falta-nos um supermercado descente e condizente com o aumento populacional (teremos inauguração em breve do novo condomínio ainda em construção e que aumentará no mínimo  em mais 150 famílias, a população do bairro), falta-nos padarias descentes com pão fresco e ofertas de bolos e doces, lojas de roupas e calçados, cosméticos, lingeries, artigos esportivos, peças para carros e motos,  agências bancárias, loteria federal, postos de gasolina, restaurantes, padarias, consultórios médico, veterinário e odontológico....falta-nos tudo...E este é  o motivo principal deste prolixo texto...

OBSERVE O NOVO EMPREENDIMENTO COMERCIAL  DE AREIA BRANCA

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Plus ça change, plus c'est la même chose
“Quanto mais as coisas mudam, mais elas permanecem a mesma.”

Já sofri muito na vida...Sofrer é de viver e todos nós passamos por esta provação de viver...Os dois maiores sofrimentos vieram de fatos acontecidos com meu filho...Um deles foi quando ainda pequeno - 4 aninhos - caiu da bicicleta novinha que com o mó sacrifice comprei e teve fratura exposta o ...outro conteceu quando foi agredido na boate Via Show...

O País vive um luto...Não se fala em outra coisa aqui e nas outras redes sociais..Não se fala de outra coisa na tv...E não poderia ser diferente...

Apesar dos posts emocionados - um que me causou impressão pela verve, punch e visceras a mostra foi do Marcelo Peregrino, que é assim mesmo, todo solidário e personal em suas vibes - Perê pedia, quase mandando, que todos vivessem a tristeza que pairava no ar, atristeza do Deserto do Real - E cessassem os posts alegrinhos que surgem ao lado de copos de cerveja e as luzes da festa...(por tal, não postei as fotos do ensaio do bloco Me Dá  Que Eu Como - A sacanagem vai continuar...

Na boate Via Show, as mortes e espancamentos continuarão a acontecer...O sistema de incêncio não será revisto...Os amigos de meu filho que presenciaram o espancamento continuarão a ir e talvez ele próprio resolva ir...
  O corpo de bombeiros vai continuar a fazer vista grossa sobre as falhas em casas de shows restaurantes e lugares públicos...E os seus integrantes e familiares irão frequentá-los...
Os apresentadores - Espetaqueiros e apregoadores de audiencia - que fazem a interpretação pessoal dos fatos e com suas verborrágicas falácias encantam as tardes em seus programas de tv, continuarão a ir a casas de shows e a fazer seus programas pessoas em casas que ao entrar não verificam se estão com a sua regularidade em dia...
Os policiais que fazem a segurança ou que a chefiam continuarão a fazer vista grossa e ouvido de mercador sobre os erros que alí ocorrem...
 Os políticos que enviaram suas condolências continuarão a enviar seus cartões e pedidos para que se libere o funcionamento das casas de shows e espetáculos e dos restaurantes dos seus apadrinhados, não moverão um dedo para mudar a legislação e continuarão a andar abraçados com quem não paga imposto e/ou atrocidades parecidas...

E o pior...Os artistas continuarão a toocar e fazer shows, nas casas de shows, boates e similares que não tem planos e equipamentos para salvaguardar o público em casos como o da tragédia no sul...

Pior ainda...As casas continuarão a ser frequentadas por artistas e famosos...continuarão a ser patrocinadas por grandes marcas...

E o deprimente...Nós o povo...Continuaremos a ir a estes lugares...

Plus ça change, plus c'est la même chose: “Quanto mais as coisas mudam, mais elas permanecem a mesma.”
 
A foto foi copiada do Blog Pipoca de Bits

sábado, 17 de novembro de 2012

A BULA

    Não tinha apego à vida. O que não significa que desejava a morte. Seus cuidados com a saúde eram nenhum. Sedentário, não fazia exercícios, ação que julgava um grande excesso, era um móvel de jacarandá, movia-se por extrema necessidade e mais por força e ação do dia a dia do que de sua própria vontade.

    Não tinha uma vida permeada por regras. Até gostaria de ser uma pessoa metódica, mas, não o era. Tinha manias, algumas esquisitas, poder-se-ia dizer “muito esquisitas”. Sua vida não era normal, mas não se poderia afirmar que era um excêntrico.

    Não tinha o vigor criativo e doentio de Eugene O’neil, e talvez dele nunca tivesse ouvido falar, da tragédia não se encantava nem com o bode nem com os cantos, partes de um culto que lhe eram tão familiar quanto O’neil. Os problemas eternos do homem não o interessavam, o destino, as paixões e a justiça, eram para ele questões teóricas que acentuavam a desordem mental inerente a todo ser humano, preferia rir e tomar uns tragos, brindar o dúbio comportamento e o escárnio que sentia da sociedade.

    Era um homem de vanguarda, um obreiro, um para militar a serviço de sua própria tragicomédia. Obra original de sua autoria, que jamais iria contextualizar.

    Sentia-se cheio de vida, e de sua saúde regozijava-se. Uma de suas manias era comprar remédios. Só para tê-los em casa, para ficar observando, uma coleção da qual podia debochar. Era realmente um homem de vanguarda.

    Desprezava a ciência e os médicos, Sua hipocondria, era de colecionador, de vitrine. Que diria ele desta comparação?. Tinha na ponta da língua, diversos casos de erro médico, com detalhes de datas, vítimas e locais. Por não gostar da internet, gastava horas infindas em cartas, artigos e teses a revistas, jornais, programas de Tv e rádio. Tudo o que pudesse fazer para expressar seu repúdio a ciência de Hipocrates de Cós.

    Tamanha era sua atuação, que chegava a ser conhecido de membros do Conselho de Medicina, que o odiavam. E por tratar-se de um Conselho muito corporativista, o contágio do repúdio circulava de médico em médico. “Dia da caça, dia do caçador”.

    Certo dia foi acordado no meio da noite para socorrer um vizinho. Na verdade um grande desafeto. Não era nenhum estoicista, mas também não vivia somente para o prazer, afinal não se deve negar água a quem tem sede. Levou o indivíduo - termo usado por ele, para designar o vizinho doente – ao hospital, estacionou onde era possível, em frente a uma garagem, mas naquela hora não haveria de importunar ninguém, pois, somente iria despachar o indivíduo e sua família e voltar aos braços de Morfeu. Para sua surpresa, os minutinhos em que se demorara haviam se constituído em meia hora, e seu carro estava com os vidros laterais quebrados e fora empurrado para o meio da rua. Seu ódio, que quase sabia guardar bem, tomara-lhe todo o corpo e mente. Seu repúdio a classe médica e a necessidade da utilização de seus serviços tornara-se ali maior e maior...
    
    Quando se dissipou parte de sua ira, pode ver o cartaz que pendia sob o portão de garagem que travara: “Não pare nem por um minuto, pois, se eu quiser entrar ou sair, serei obrigado a quebrar seu vidro lateral”.
    Maldito hospital, malditos funcionários, maldita ambulância que não socorreu aquele besta fraco e malditos médicos, resmungou – por uma semana seguida.

    Era realmente um homem da oposição, da diferença. Seu conceito de realidade fazia-o destronar todo o pensamento em torno do pecado, da moral e da graça. Embora tivesse pouca leitura e passasse a quilômetros de distância da intelectualidade filosófico-literária, tinha decorado uma passagem de Nietzche: “o que é bom? Tudo que eleve no homem o sentimento de potência, à vontade de potência, a própria potência”.
 

     Pois é, certa noite deleitou-se em Whisky. Foram duas garrafas de Jack Daniel's, e o coração gritou. Uma dor insuportável no peito, coisa séria. Nunca havia se sentido assim, aliás, jamais houvera sentido qualquer dor, mas, intuitivamente soube que aquela medida era exagerada. Dor e medo, no espartano, dor e medo – estava doente. Gritava feito criança, toda a casa estava nervosa. Os gritos chamaram a atenção da vizinhança e por seqüência ao tumulto, da polícia. Faltava a ambulância. O homem mudara de cor, arfava por não conseguir respirar.
 

    Sua mulher sai aos gritos: Uma ambulância, uma ambulância. Essa chega, e quando adentra o imóvel, já é tarde, o homem caído no chão sobre uma imensidade enorme de frascos, vidros, tubos e ampolas de remédios dos mais variados tipos e tamanhos. Dava a impressão de que num último e gigantesco ímpeto, tentara alcançar a salvação no que tanto houvera desprezado. Preso a sua mão uma bula, que dizia, “não use este medicamento antes ou após ingerir bebidas alcoólicas. Não cessando os sintomas procure imediatamente um médico”.


 O universo às vezes conspira contra. Não existe verdade mais absoluta que a própria realidade.

Sylvio Neto
Postado No Recanto das Letras
Enviado por Sylvio Neto em 22/11/2005
Código do texto: T74947

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

PERDURÁVEL

Dou aqui, lugar a um poema escrito e postado em meu FaceBook, há dois dias atrás, por conta das palavras e comentários, de dois queridos amigos escritores:

Pelo que me deixou muito hávido, envaídecido e potente, às palavras de Marlos Degani, poeta premiado, que é autor do livro Sangue da Palavra e editor do Blog de mesmo nome é pessoa que trata com esmero a sua entrega ao universo poético. Escritor que vai além da literatura, pois que, trás para o circulo de seu poema e de sua poesia todo um tratado filosófico que é de seu pensar e autoria.
E que ainda na reunião destas qualidades acima descritas - vive a perseguir e perseguir o poema...Desacelera sua concisa e precisa busca, estilosa e dentro da cadência normativa da Lingua Portuguesa e da Literatura Brasileira, para tecer o que recebo como um elogio...
" Quisera eu ter um naco que fosse desta sua visceralidade (ampla e veloz). Quisera eu..."
 
Por conta, do olhar carinhoso - nunca caridoso - sobre a minha pequena e fina obra, pelos comentários que sempre surgem, pelas idéias de somar que sempre vem de seu coração de olhar com senso crítico e criativo, que acabam me sendo incentivadores, Cezar Ray, o editor do Blog Zarayland, campanário de lembranças e memórias que de forma célere ainda consegue ser ricamente ilustrador de um tempo, de um momento, de uma cena ou de um movimento...
"Marlos Degani nunca me elogiou assim (ciúmes) mas ele tem razão. Nem só pela visceralidade que existe em vc. Acho que vc conseguiu desta vez escrever sua obra prima. Talvez, não o poema todo. Mas os versos finais "Quisera ter encontrado / Uma forca / Dentro de teu coração... É realmente um dos versos mais lindos e mais chocantes da literatura mundial. E falo isso com uma inveja danada!!!!!"

Muito, muito, muito obrigado...

FRUGAL
 
Entrei e procurei
Nada achei
Nada havia dentro
Daquela cabeça
Daquele coração
Quase todas as palavras
Surtavam
Pois não diziam, o que devem dizer
Não havia plexo
E os abraços não abraçavam
Nada tinha nexo
É tudo muito pérfido, tênue
Oh! Plasma ignóbil, fugaz e plissado
E meu âmago em veneta, arroubo, ígneo
Chora esta  nódoa
E destoa seu normal e simplório coloquial
Para dilapidar
Palavras
Que nunca falou a ninguém
Quisera ter encontrado
Uma  forca
Dentro de teu coração...

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

O Senador dos Bares

O SENADOR DOS BARES

 
Olha-lo caído ali no chão, sobre uma sangueira rubra e espessa, gerava várias sensações, um quase nojo, uma quase pena e algum pavor eu acho. Era uma cena de cinema com fotógrafos, jornalistas, a polícia e curiosos, ilustres desconhecidos como que figurantes compondo uma cena.
 
E eu, coadjuvante curioso e quieto, vi o mundo girar veloz em minha memória, vitima que era daquela circunstância caustica, formada por aquele cheiro, aquela visão, aquele burburinho, com comentários desencontrados e inúteis.

 Em minha mente um outro filme começou a rodar. Hora em câmera lenta, hora em fast foward. Era difícil conciliar as coisas, o flash back e o real, o silêncio do corpo caído, e o burburinho geral. Minha mente rodava confusa.

 Olhei para o bar em frente e, veio nítida a imagem de uma conversa anterior, onde ele, engajou-se em um discurso de cunho social apaixonado. Era um homem de leitura, não propriamente um intelectual, mas tinha uma boa formação. Discorreu então, neste breve momento de nossas vidas, sobre a formação da política local, tinha de cabeça dados históricos, nomes, datas, fatos. Faltava-lhe os documentos, prova de seus argumentos, pois, qual nada, era ele o próprio documento “in vitro”.
 
Era uma conversa divertida, conversa de bar, entremeada por rápidas interrupções para piadas, gargalhadas e espiadelas nas perdidas - nome que dava as mulheres de seu gosto, que passavam pela calçada adjacente - e longos e prazerosos goles de cerveja, que exigia, “só aceito Bohemia”.

 Era difícil aceitar como fato, a condição que hora se apresentava. A caneta em sua mão fez-me concluir, que deveria ele estar fazendo o que lhe era peculiar, “dando nome aos bois”. Teimava em apresentar nominalmente os culpados pelo Brasil que temos. De forma hierárquica e com muito método, chegava a propor uma longa lista de nomes a nível federal, estadual e municipal, concluindo com o bairro: “Estes são os matracáfios do nosso povo, os destruidores de nossa sociedade”, bradava.
 
Merinha, a dona do bar, sempre lhe dizia, “esta mania de ficar se metendo em política e mexendo com a mulher dos outros, ainda vai te dar problemas sérios, homem de deus, vê se fica direitinho!!”. Ao que lhe respondia sorrindo “Eu sou o Senador dos bares e o Mangueirinha, é meu palanque. Bota mais uma Bohemia no balcão.” E ria, e falava e olhava batendo palmas às perdidas que passavam.
Ali no chão, semeando a terra, vários homens em um. O cliente, o cidadão, o antropólogo, o sociólogo, o homem, O senador dos bares. E eu, aqui sou, apenas mais um que nem sabia seu nome, sigo para casa, ainda atordoado, perguntando-me por que nunca houvera perguntado seu nome, e se vale à pena viver, e se nossa opinião sobre a verdade não pode ser dita.
Sylvio Neto
Publicado no Recanto das Letras
Enviado por Sylvio Neto em 07/12/2005
Código do texto: T81981