quinta-feira, 30 de julho de 2009

Oh! Glória



- Seu Antônio, me vê duas pipas por favor
- Ta na mão...Vai levar linha e cerol, dona Lina?
- Vou sim seu Antônio...O Leozinho e o pai vão soltar pipa hoje...É que hoje é folga dele...Leozinho é uma animação só.
- Ta aqui...óh...A melhor pipa do bairro...E tem carimbo e tudo, olha ahí...Tonho de Deus, Rei das Pipas.... Glória deus, é só benção.

Falou e mostrou orgulhoso o carimbo que havia mandado fazer dias antes, o Tonho de Deus Rei das Pipas. Antônio Dias Carpo de Jesus, 49 anos, caucasiano, natural de Santa Catarina, filho de agricultores católicos, descendentes diretos de Italianos, radicados no Estado desde o século XIX., não foi sempre o Tonho de Deus.

Desde o final de sua adolescência que gabava-se de seu ateísmo, de sua controversa e dedicada vocação comunista. Durante toda a infância fora pressionado pelos pais e avós a ler a bíblia e a freqüentar as missas. Fôra prometido ao Padre Giulliano desde o batismo, seria sacristão e na graça de deus, padre de seminário. E por tal missão ardia em trabalhos diários na capela que fora construída nas terras do Coronel Justino, local onde seus avós eram meeiros.

Aos quatorze anos fugiu dos olhos dos pais e parentes, que ficaram atormentados sem saber o que lhe havia acontecido, andava à época, por aquelas bandas, um circo de ciganos e uma onça que perturbava o juízo dos capatazes da fazenda, sumindo com gado bovino miúdo e galinhas.

- larguei o pé pelas mata, logo de noitinha depois que mãe apagou a lamparina, peguei de pé na noite toda até a rodovia. Cheguei lá já era de manhãzinha, sentei na beira, abri a sacola e peguei um dos pedaço de bolo que levei pra viagem...Não senti nem o cansaço, só a fome...Fome de mundo, fome de liberdade, fome de ser comigo e por mim mermo.
Fui assim, de estalo, com pouca roupa, o canivete, umas laranja, pão, tapioca, farofa de aipim e os pedaço de bolo que tinha economizado dos café da manhã...Só isso e corage, vontade de ver o mundo...Agora eu era dono de meu destino...

Antônio, falava com a emoção dos seus quatorze anos. Toda a igreja calada o ouvia atenta neste seu depoimento emocionado – um testemunho de sua transformação no sangue de cristo.

Em casa, Leozinho e o pai se preparavam para soltar pipa. Era domingão de sol, dia lindo e iluminado...Na quinta, quando Lina chegou com a pipa , o cerol e a linha em casa, Eduardo já estava pronto para sair, fora chamado as pressas pelo delegado Romão, chefe de sua equipe, na DAS – Delegacia Anti Seqüestro, haviam recebido uma dica de onde estaria caindo o estuprador da calcinha amarela, o perigoso e sanguinário estuprador que após torturar e estuprar suas vitimas, deixava-as vestidas apenas com uma calcinha amarela. A dica era quente e era uma chance de tirar o Secretário Estadual de Segurança Pública, o Chefe de Polícia Civil, a imprensa e a sociedade de seus calcanhares (de Aquiles), a folga ficaria para domingo...Tanto melhor pensou...Mas Leozinho, de 5 anos, ficou inconsolável, estava de férias na escolinha e tinha muito pouco tempo com o pai que dividia-se em plantões, expedientes, investigações e emergências tais quais a que por hora se entregaria.
Na venda de Tonho de Deus, seus filhos, Olga, de 22 anos brincava com o sobrinho Kaíque, de 3 anos, filho de Olívia, de 16 que ajudava, Luis Carlos de 13 a pendurar as pipas na parede. Todos estavam meio apreensivos pois Lênin, de 24 anos, o mais velho e problemático dos quatro, não aparecia em casa desde quarta feira a noite.

- andando pela estrada sem saber o rumo nem direção, já até pras hora de sol a pino, no meio do céu, um caminhão passou e fez buzina...Corri, peguei da cara na janela e perguntei, vai carona?, o motorista riu e perguntou pra onde eu ia...Eu respondi pra ele bem assim...Vou pro mundo...ele riu de novo e me mandou subir. Não perguntou nem meu nome e já foi me oferecendo um cigarro e um gole de cana. Nem me lembro direito a hora que paramos e do que aconteceu naquelas horas, estava já meio tonto daquele cigarro esquisito e da cana. Acordei pelado numa cama com várias mulheres, mais velhas que eu...O quarto era pequeno, tinha cheiro de cigarro, aguardente e roupa suja. O motorista estava também trançado no meio de três mulheres, contei e ao todo tinha umas seis ou sete mulhé. Porta trancada, janela com uma cortina de chita barata, fui ao banheiro que era uma fedentina só e tomei o primeiro banho de minha liberdade.

Dali, seguimos para São Paulo e minha emoção não dava lugar a nada...Fumamos outros cigarros, bebemos outros goles, paramos em outros casas em outros postos, em outros bares e em outros ares com e sem luz vermelha. De São Paulo fomos ao Paraná, do Paraná a Goiás de Goiás pra outro canto e de canto em canto, foram dois anos de estrada, parada, trabalho, suor e prazer...Nesse ponto da vida eu já ia fazer 17 anos e já fumava maconha e bebia como um adulto, já pilotava o caminhão, de meu compadre Arthur, que não andava bem de saúde...Arthur além da maconha e da cachaça também tomava uns comprimidos que não me deixava chegar perto – depois vim a saber que era optalidon – Por conta das dores constantes no peito e nas pernas, passamos a trabalhar mais em São Paulo, é que tabém o caminhão já não era mais aquelas coisas mesmo.

Percebendo a disposição e bem estar de Eduardo, Lina resolveu arriscar uma pergunta, Eduardo odiava a falar do trabalho em casa. E então Edu, conseguiram prender o tarado?. Não, respondeu Edu...Mas ele não vai mas muito longe não...Deu mole lá pros lados da zona Oeste e acho que a milícia o pegou. Não quero nem pensar nisso hoje, hoje o negócio é pipaaaaaa...Agarrando-a pela cintura em um beijo, que Leozinho, logo chiou...Pai vamo, vamo logo pai. Riram e Edu pegou o menino pelos braços e jogou-o ao ar. Ta legal, vamos passar cerol e cortar geral, disse: - cuidado rapaziada, se cuida que chegou o cerol fininho.

Na venda, com os olhos esbugalhados, ao telefone, Olga balbucia: mas meu deus. Como isso foi acontecer, meu deus.Ai,moço, o que é que eu faço? Ai Olívia, ai Luizinho...Mataram nosso irmão, meu deus...ai mataram o Lênin, mataram o Lênin, meu deus. Luis, corre lá na Divina Rama e chama o papai...Pega a moto Luizinho vai rápido, falou nervosa anotando de forma inconsciente alguns dados que lhe eram passados pelo telefone...Sei, sei...Mas moço pra que roupa? O que de calcinha? Ai meu deus que foi que fizeram com meu irmãozinho, ai meu deus.

- filhão, vamos arrastar aquela pipa amarela ali?
- Vamo pai, corta ela papai
- Não foge não é o cerol, é o cerol...ah ah ah....
- Pai, pai cuidado com o menino na moto pai
- Ai meu deus, ai meu deus o que foi que eu fiz meu deus? Ajuda aqui, ajuda...Chamem uma ambulância, rápido, chamem uma ambulância rápido por favor...

As portas da Igreja da Divina Rama e Graça, o apóstolo Íago junto a esposa, missionária Eliane despede-se dos fies dizendo: - que domingo glorioso, que domingo de graça e luz, que lindo e belo testemunho Antonio, que benção tê-lo aqui, conosco, vá com com deus, amado.

Vindo a seu encontro e vendo que os fiéis já haviam se dispersado, o diácono Paulo, diz: apóstolo, que benção, hoje a arrecadação bateu nosso recorde e olha que são apenas 9 meses de portas abertas para o senhor. Quanto foi Paulo?. Mil e trezentos reais em dinheiro e mais este cheque de trezentos e vinte e cinco reais, apóstolo, mil – e – seiscentos – e – vin-te – cin- co - re-aissssss, respondeu sibilante...Que ótimo, com o cheque a gente cobre a conta da igreja que ta negativa, com o dinheiro a gente paga a nota dos instrumentos e ainda sobra algum...Ta duro?

- sabe Tonho, a melhor coisa que a gente fizemo, depois de enterrar o compadre, foi eu pedir as conta da fábrica, você vender aquele bar amaldiçoado, pegar nossas crianças e vir mesmo aqui pro Rio, sabe...Assim, você largô de vez o vício, a bebida, o cartiado, as mulhé da vida...Entregou o coração pra Jesus...Viu como ta dando tudo certo? A venda vai bem, tu ta danado nas venda de pipa e cerol...A gente mora qui a tão pouco tempo e já tem freguesia, nas verdura, nas galinha.
- E nas pipa né Marta...No cerol
- Sabe não sei como eu fiquei tanto tempo naquela vida
- Se você num fosse da vida, agente não tinha se conhecido, né?O que vale é o hoje, amanhã é de deus e nós somos de deus
- É meu velho...E tem também o caso do Lênin...Lá ele não ia se endireitar...Viu como ele tem andado calmo? Vendeu o revolve...Que benção
- É mulhé...É o nosso senhor operando

Um comentário:

Mailton disse...

Caramba!... esse pequeno conto é muito bem encadeado, bom pra valer. Aliás, vindo de quem veio, isso nem deveria ser uma surpresa pra mim. Afinal, tudo aquilo que Sylvio Neto escreve é sempre ímpar e surpreendente.
Portanto,com a sinceridade que deve permear toda amizade sincera, ou seja: sem nenhuma intenção calhorda de puxa-saquismo, resta-me apenas ratificar, que toda visita que faço ao seu blogg - é sempre uma delícia, um aprendizado, uma lição de vida - às vezes - como se vê na própria trama do conto em causa.
Você, amigo Sylvio, é um dos melhores pensadores dentre os que ainda sabem pensar à minha volta, um formador de opinião dos mais incomparáveis que conheço.

Parabéns pelo "Oh, Glória";
Parabéns pelo conteúdo todo do seu blogg;
Parabéns pelos ideais altruístas e dignificantes que você persegue com tanta garra e sacrifício!

Um enorme abraço deste seu fã, Mailton Rangel.