quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Ah! Minha Castor - LEMBRANÇAS QUE A CHUVA TRAZ


Dias de chuva fina e frio, dias de olhar pra dentro, virar os olhos pro eu e suas lembranças...Existem lembranças que surgem bonitas e exuberantes tal qual barroco sol em dia claro e, outras que vem mesmo nubladas em temporal...Assim a alma se fecha em sí mesma, encoberta por pesados edredons e cortinas com backlight.

Eu...Fiquei olhando pra dentro e tentando perceber...Sentir...a velocidade do tempo, logrei deitar por sobre certa feita em que a menina namorada de talentoso jovem amigo, resolvera me paquerar sob suas costas enquanto este presente estava, com piscadelas de olhos, sorrisos de canto de boca, olhares de lado e beliscões silenciosos...De um perto disfarçado se abria assim, toda encantadora, sensual, safada...Por e-mail nada temia e, miava e ronronava sedutora vampira, convidava e ria...queria...minha alma, meu nome...minha ética e verdade...

Como me livrar de tal incômodo de deliciosa ameaça? Como não sentir todo o peso daquela vontade adulta rampeira e excitante?Como mascarar o tesão?Como desmascarar a oferta oferecida e querida? O que fazer?

Enviei-lhe esta carta:

CARTA À GIOCONDA

“Tocar na afetividade feminina
– feliz acidente de percurso do domínio masculino –
quer dizer se aproximar dos sussurros intermináveis das coisas”
Walter Von Rossum

Areia Branca, B.R/R.J 18 Jan 05

Querida menina (que insistirei tratar por Castor, comparando-a, a Simone de Beauvoir, enquanto não for isso desagradável para ti),

O que você quer que eu faça, ainda? Se já traí a mim, nas convicções que criei e espargi com alarde.
Sinto dor por isso – não menor é claro que a excitação deste nosso negócio. Traindo, também estou, um amigo (e por isso disse que traía a mim) – E tento enfim convencer-me, diante de tuas palavras e argumentos, e também de minha própria vontade e do desejo que se forma a partir dela, que é preciso – O mundo se deixou dominar com a energia destrutiva da vontade – A vontade é a verdade. Por que então, salvá-lo, se já é perdido em querer?
Não há medo em minha ação. Nem arrependimento. Só a certeza da traição. Será erro?. Buscando ser perspicaz até o fim e não encucar com o belo: “Eu tenho me morrido lentamente. Até reagir num súbito instante, pulsando vida. Até novo morrer lento” .
O que nos tornou tão atraentes? Será o simulacro pseudo-intelectual de nossa conversa afiada e distante? Ou o tom excitante que dilacera, meu instante?
Estou comovido e convencido. Também quero este momento: E não se perca em pensar que sou ou serei apenas sério e sincero, pois que, não me sai da cabeça que lateja a tua testa molhada , a todo instante.

Paz Profunda

(Se tu é Castor, serei eu, teu Sartre)
Sylvio Neto

Publicado no Recanto das Letras em 02/07/2005
Código do texto: T30086

Nenhum comentário: